sexta-feira, 23 de julho de 2010

Tochnit aleph

Apresento-vos o Plano A. Ou, como conhecido no alfabeto hebraico, Tochnit Aleph. Sinto orgulho por ser quem sou. Nós, judeus, sentimos e guardamos sentimentos que só quem passou e viu o que vimos, é capaz de entender. Os guetos, os quartos, os caminhões, cada gota de sangue.
Contrariando o que pensam, não odiamos apenas os capitães, os responsáveis, as pessoas que seguravam armas, que nos colocavam em câmaras de ar, ou que torturavam não só a nós, mas a nossos pais, e irmãos. A nossa família.
Quem nós odiávamos? Odiávamos cada alemão, e cada polonês que ainda respirassem. Odiávamos as pessoas capazes de pegar pelos calcanheres um bebê aos berros e esmagar seu crânio contra uma parede de tijolos. Odiávamos seres que seriam capazes de conduzir outros para ruas fértidas e medievais e deixá-los morrer de fome, de modo que seus corpos fossem comidos por cachorros famintos e abandonados. Odiávamos também, pessoas que nos iludiam dizendo que seríamos restabelecidos no leste, mas que apenas nos enganavam para subirmos em trens construídos para transportar gados, e que depois iriam nos dividir em duas partes-para a esquerda e para a direita- e se faziam demônios responsaveis pelo julgamento, ao deciderem quem deveria viver e quem deveria morrer. Odiávamos as pessoas que nos maltratavam, nos chicoteavam, e nos empurravam em galpões de concreto, onde diziam que iriamos ser limpos, pois estávamos infectados como animais picados por moscas-mentiam mesmo no último momento-, e nos observavam enquanto esperávamos pela água que nunca vinha, e que na verdade essa água seria gáz Zyklon B. Odiávamos pelo plano que tinham de nos retirar da face da terra, de destruir nossas lápides, e rasgar o últero das nossas mães.
Quando um homem arde com uma raiva tão incandescente quanto essa, aquecida ainda mais pelo conhecimento de que o resto do mundo está pronto para dar de ombros e seguir seu caminho, ele está preparado para fazer qualquer coisa. Plano Aleph: envenenar o sistema de água da Alemanha. Reconheci que com apenas um giro de torneira, iriamos matar sem distinções entre nazistas ativos e cidadãos alemães comuns; entre criminosos de guerra diretos e espectadores silenciosos. Não conseguiriamos um terço do número que eles conseguiram, matando a nossa raça; mas pelo menos, 1 milhão de arianos, seriam mortos, assim como nós fomos: sem distinção. Crianças, bebês, idosos,adultos, adolescentes. Queria poder ouvir o último batimento de cada coração daquela cidade.
Esta é a fúria de alguém que viu demais o próprio sangue ser derramado. Pois este era o Plano A, cujo objetivo era matar, com um único golpe, não menos que 1 milhão de alemães. E eu não questionei o líder do plano por um momento sequer. Será feito.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Presença

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
Não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janelae
Respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
Que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.

Mário Quintana

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Canção de ninar.

Era tarde da noite, e a casa me passava uma sensação de nostalgia. Não sei se era o sono, o cheiro da vodka, ou o cansaço da festa. Sei que me senti sendo arrastada em direção ao sofá. Ha uma semana eu recebo mensagens de um número desconhecido fazendo uma contagem regressiva. Ontem eu recebi, supostamente, a última. Ela dizia: Um.
O interfone tocou e fui avisada que havia uma caixa dos correios. Mandei que a deixassem na minha porta. A campainha tocou e eu a recebi. Era uma grande caixa preta, e um envelope branco que fora escrito com letras douradas. Fiquei surpresa pelo fato de que até o instante, continuara o anonimato. Havia apenas uma palavra escrita no envelope: Zero.
Eu ri. Fui retirando todo o papel picado dourado, e vi que havia vários botões de rosas. No fundo da caixa havia um Cd, do qual eu sorri ao ler o nome do cantor. Não havia mais anonimato. Coloquei-o para tocar, e me deitei no sofá segurando uma rosa. Uma serenidade maravilhosa inundou toda a minha alma, semelhante às doces manhãs primaveris com as quais me delicio de todo o coração.
Deixei que as lembranças me tomassem conta e a sensação do abraço dela me afagassem. Ao som da canção "Good night my angel" cantada por Billy Joel, eu adormeci.
Essa foi a minha tentativa de refazer a prova de redação, escolhendo o primeiro tema (narração).

Sem título

Recebi a nota da minha redação e fiquei horrorizada. Consegui zerar a única coisa que eu sei fazer bem: escrever. Deixe-me explicar melhor a situação. A professora nos deu duas opções: Uma narração ou uma descrição. Ambos em primeira pessoa. Na narração, eu estaria completando 18 anos, e receberia uma caixa preta com envelope branco e letras douradas. Bem detalhista, né? E pra piorar a situação, teria que ter em algum lugar do enredo, o seguinte trecho: "Uma serenidade maravilhosa inundou toda a minha alma, semelhante às doces manhãs primaveris com as quais me delicio de todo o coração." Ah, pelo amor de Deus né. A descrição teria como objetivo focar em algum lugar do qual você não vai há 5 anos. Simples. Escolhi a descrição, óbvio. Sabe o que eu errei? Nada. Zerei pelo fato de que descrevi um ambiente fechado, e não uma paisagem. É nessas horas que da vontade de dar um hadouken bem dado na professora. Ela não deixou claro que queria uma paisagem nem nada. Um garoto da minha sala tirou 10. Fui olhar a descrição dele. Estava ótima, claro. Mas se eu soubesse que a professora queria uma descrição sobre gnomos, magia e floresta encantada, eu teria plagiado a da Branca de Neve.
É, eu to com raiva mesmo.

terça-feira, 18 de maio de 2010

O grito

Não sei se gosto mesmo da minha namorada, diz um amigo para o outro.
Ele sabe.
Não sei se quero continuar com a vida que tenho, pensamos em silêncio.
Sabemos sim.
Sabemos tudo o que sentimos porque algo dentro de nós grita. Tentamos abafar esse grito com conversas tolas, elucubrações, esoterismo, leituras dinâmicas, namoros virtuais, mas não importa o método que iremos utilizar para procurar uma verdade que se encaixe nos nossos planos: será infrutífero. A verdade já está lá dentro, a verdade impõe-se, fala mais alto que nós, ela grita.
A verdade grita. Provoca febres, salta aos olhos, desenvolve úceras. Nosso corpo é a casa da verdade, lá de dentro vêm todas as informações que passarão por uma triagem particular. Algumas verdades a gente deixa sair, outras a gente aprisiona. Mas a verdade é só uma: ninguém tem dúvida sobre si mesmo.
'Eu não sei se teria coragem de jogar tudo para o alto.'
Sabe sim.